Os Ministérios da Ciência do Chile e do Brasil assinaram hoje, em Brasília, um Memorando de Entendimento para cooperar na área de Inteligência Artificial. Com isso, o Brasil passa a ser parceiro ativo do LatamGPT, o modelo de linguagem latino-americano (LLM) coordenado a partir do Chile pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial, CENIA.
O LatamGPT é o primeiro LLM aberto da região e seu treinamento busca refletir a cultura, os idiomas e a história da América Latina e do Caribe. Desenvolvido de forma colaborativa com países de toda a região, será um modelo aberto que permitirá aprimorar a representação das línguas, expressões e particularidades culturais nos sistemas de IA, promovendo maior equidade no acesso e no uso dessas tecnologias.
“ A agenda de Inteligência Artificial esteve no centro da visita do Presidente Gabriel Boric a Brasília. Entre os memorandos de entendimento assinados, um deles prevê que o LatamGPT seja desenvolvido em colaboração com o Brasil, ampliando as possibilidades de o primeiro modelo de linguagem latino-americano tornar-se um motor para o avanço da IA na região.”
CENIA CHILE
“O fato de que um gigante tecnológico como o Brasil se una ao projeto LatamGPT demonstra a liderança do Chile em Inteligência Artificial e representa um marco político, já que até agora a maioria dos modelos de linguagem foram desenvolvidos no Norte Global. O LatamGPT não é apenas um avanço tecnológico, mas também uma ferramenta que democratiza o acesso à IA, oferecendo uma tecnologia mais próxima, útil e adaptada à realidade das pessoas da América Latina e do Caribe. Que dois países progressistas como Chile e Brasil assumam a liderança dessa iniciativa nos permite avançar em direção à soberania tecnológica, à preservação de nossas culturas, à representação regional e ao fortalecimento de capacidades e conhecimentos”, afirmou a ministra da Ciência e porta-voz (s), Aisén Etcheverry.
Álvaro Soto, diretor do CENIA e parte da delegação presidencial, destacou: “Essa união com o Brasil mostra como a América Latina é parte ativa da revolução da IA, sob a liderança dos dois países mais bem posicionados no Índice Latino-americano de IA: Brasil e Chile. O fato de o LatamGPT ser desenvolvido em colaboração com o Brasil multiplica suas chances de tornar-se um motor para o avanço da IA na região”.
Pelo lado do Brasil, o acordo foi assinado pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, no contexto da visita presidencial, no Palácio do Planalto em Brasília. Trata-se de um passo fundamental para o LLM latino-americano, já em fase de treinamento, pois o Brasil é o país com o maior investimento anunciado em IA na região: em 2024 foi lançado o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, que prevê investimentos de 4 bilhões de dólares. Com isso, o Brasil se posiciona no mesmo nível de investimento público em IA de países desenvolvidos.
Como atividade paralela à visita, o CENIA assinará um acordo com a Universidade de São Paulo (USP) para apoiar a criação de um centro de IA capaz de integrar e potencializar, a partir da USP, as capacidades locais em três eixos: LatamGPT, formação e reconversão profissional, e o uso da IA para a pesquisa científica.
“Um dos resultados do encontro entre os presidentes Boric e Lula é a priorização de três áreas fundamentais: a defesa e a proteção da democracia, a valorização do multilateralismo e o reconhecimento do livre comércio em benefício das pessoas. Sabemos que a IA pode representar riscos, mas também uma oportunidade para esses três pilares. O acordo que firmamos coloca a IA como foco de trabalho conjunto, com uma abordagem ética de proteção a esses pilares, em que a América Latina se manifesta não apenas em posições teóricas, mas em avanços concretos como o LatamGPT”, concluiu a ministra Etcheverry.
O Memorando assinado prevê o trabalho conjunto para a criação de sistemas de Inteligência Artificial e o desenvolvimento do LatamGPT. Além disso, abrange temas de articulação regional e de cooperação acadêmica e científica entre universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e startups na área de IA, incentivando projetos conjuntos, o intercâmbio de pesquisadores e estudantes, bem como a realização de eventos científicos e acadêmicos.
O acordo também compromete as partes a fortalecer a colaboração em infraestruturas de computação de alto desempenho, fundamentais para o desenvolvimento e treinamento de modelos de IA e outras aplicações, inclusive na pesquisa científica, garantindo o acesso compartilhado a recursos computacionais. Prevê ainda o desenvolvimento de modelos e sistemas interoperáveis, além da criação de marcos regulatórios e políticas públicas que apoiem o avanço da IA em um contexto de inovação responsável e voltado ao desenvolvimento sustentável.
Construir um LLM próprio permite desenvolver conhecimento prático e gerar capacidades técnicas locais. Esse processo fortalece a comunidade científica e tecnológica da região, criando uma base sólida para futuras inovações.
A regulação global da IA está sendo definida em organismos como a ONU e a OCDE. Para que a América Latina e o Caribe tenham voz ativa nesse debate, é fundamental compreender em profundidade o desenvolvimento técnico e as implicações desses modelos. Ter um LLM regional permitirá influenciar na criação de políticas públicas adaptadas às necessidades locais.
Os modelos atuais foram treinados majoritariamente com dados do Norte Global, sem considerar a riqueza cultural, linguística e social da América Latina e do Caribe. Um LLM próprio garantirá que a diversidade da região esteja representada na IA do futuro.
A primeira versão do LatamGPT será lançada em meados de 2025, com planos de fortalecimento e melhorias contínuas, à medida que mais instituições se unam ao projeto e novos dados sejam incorporados para aperfeiçoar o modelo.